Alimento Eucarístico


Uma meditação sobre o banquete celestial

Por Ir. Susanna Edmunds, OP

Não leia o «Cântico dos Cânticos» se estiver com fome. A sua poesia está repleta do aroma de especiarias e de uma linguagem de doçura, e a sua ação centra-se em pomares, vinhas e adegas. Os amantes comparam-se constantemente às iguarias favoritas da humanidade: vinho, mel, leite, bolos de passas, maçãs, figos.

Num dos pontos altos do drama, a Noiva convida o seu amado a entrar no seu jardim — que é, ao mesmo tempo, o jardim dele — e a «saboreie os seus deliciosos frutos» (Cântico dos Cânticos 4, 16). E ele vem, aceitando o convite dela e partilhando do banquete que ela preparou: «Eu entrei no meu jardim, minha irmã noiva, colhi a minha mirra e o meu bálsamo; provei o meu favo com o meu mel, bebi o meu vinho e o meu leite.» (Cântico dos Cânticos 5, 1)

Qualquer pessoa que já tenha conhecido a alegria da hospitalidade — de trabalhar para preparar uma refeição maravilhosa e de se deleitar em partilhá-la com amigos e familiares — pode imaginar a alegria dos amantes nesta partilha dos frutos do paraíso.

Mas, logo no versículo seguinte, o Noivo faz uma jogada ousada. Afasta-se do banquete partilhado e da sua Noiva extasiada e chama os seus amigos: «Comei, amigos! Bebei e inebriai-vos de carícias!» (Cântico dos Cânticos 5, 1)

Como se sente a Noiva perante esta invasão do seu jardim, esta pilhagem da sua mesa, este abuso da sua hospitalidade? O Cântico não nos diz.

Este convite algo ousado do Noivo, para que todos venham e se juntem à festa, é um tema que percorre tanto o Antigo como o Novo Testamento. É o clamor da Sabedoria, que convida os tolos e os ignorantes a vir: «Comei do meu pão e bebei do vinho que eu misturei» (Provérbios 9, 5).

É a visão de Isaías, que imagina a vitória do Messias como um banquete «de carnes suculentas, um banquete de vinhos finos, de carnes cheias de tutano, de vinhos bem purificados», para o qual todos os povos e nações são convidados (Isaías 25, 6). É a parábola de Jesus sobre o rei que convida aqueles que estão nas estradas e encruzilhadas para o banquete de casamento do seu filho (Mateus 22, 1-14). É a experiência do menino que deu a Jesus o seu almoço e, de repente, viu os seus pães e peixes transformarem-se num banquete para cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças (Mateus 14, 13-21).

Normalmente, abordamos o banquete eucarístico com a intenção de nos alimentarmos — corpo e alma, coração e mente. É a própria carne de Cristo ressuscitado, alimento que permite que o nosso interior se fortaleça e que nos enriquece na caridade (Catecismo 1392-1394; Efésios 3, 16).
Mas, enquanto o alimento físico que ingerimos para a saúde do corpo se incorpora na nossa substância e na nossa vida — sempre à custa da sua própria existência substancial —, o Corpo de Cristo não se incorpora tanto em nós; somos nós que nos incorporamos n’Ele (Catecismo 1395).

A nossa fome eucarística, portanto, deve ser sempre dupla. Devemos ter fome de Cristo, «o pão de Deus… que desce do céu» (João 6, 33a). Mas devemos também ter fome de nos tornarmos parte do seu dom, parte do seu banquete, parte da sua missão de «dar vida ao mundo» (João 6, 33b). Pois a Igreja, a Noiva, é chamada a tornar-se uma só com o Noivo que se entregou por ela (Efésios 5, 25), e isto significa que ela própria deve estar disposta a ser tomada, abençoada, partida e partilhada.

Esta dupla fome torna-se possível pelo duplo mistério da Transubstanciação. Em primeiro lugar, se Cristo pode tomar o pão e o vinho — fruto da terra e obra das mãos humanas — e transformá-los no dom de si mesmo, Corpo, Sangue, Alma e Divindade, sem violar a sua natureza, então podemos confiar-Lhe o nosso próprio ser e acreditar que Ele pode tornar-nos participantes na sua missão salvífica sem violentar a nossa natureza. Além disso, se Cristo pode tomar a sua carne crucificada e ressuscitada e transformá-la em verdadeiro alimento e bebida para meros mortais, então podemos confiar que Ele não nos deixará definhar nem permitirá que sejamos consumidos para além dos nossos limites. A sua Providência transforma todas as coisas em alimento para aqueles que n’Ele confiam.

«Na festa nupcial alargada para receber o mundo inteiro, o pão não faltará, nem o vinho… Pois o desejo do Noivo não é que apenas um beba, mas que todos bebam até à embriaguez.» (Blaise Arminjon)

«Bem-aventurados os convidados para a ceia das bodas do Cordeiro.» (Apocalipse 19, 9)


A Irmã Susanna Edmunds, OP, é membro das Irmãs Dominicanas de Santa Cecília. Atualmente, exerce funções na Arquidiocese de Sydney como Decana de Estudos no Seminário do Bom Pastor, em Homebush.

Texto original em inglês: https://eucharist28.org/news/eucharistic-nourishment